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sábado, 17 de abril de 2010

Herói!


sábado, 3 de abril de 2010

Pub


— A publicidade televisiva é fascinante — dizia-me com os olhos molhados depois de passar toda uma noite a mudar de canal só à procura dos anúncios. A tarefa é, na verdade, bem mais simples que encontrar os programas, tendo em conta as proporções.
E eu concordava com ele, apesar de dificilmente levantar a cabeça do sofá. A paciência tem limites e a criatividade, como se vai verificando, também. Deixei-me adormecer e rapidamente não seria o único, embalados pela doce melodia dos jingles.
— A publicidade radiofónica é fascinante — dizia-me com remelas nos olhos ao acordar. De curta duração, com um público menos generalista («Carglass repara Carglass substitui» só recentemente se vê na TV, e sem a melodia que o tornou tão reconhecível nos automobilistas) mas com grande efeito. Além disso, alguém muda a estação do rádio quando dá a publicidade? É eficiente, pois.
Não pensei mais nisso. Deixei-me a seguir caminho instintivamente. Seguimos os dois rua abaixo. Mas antes de nos encontrarmos com um cartaz publicitário, e adivinhando já a frase que aí vinha, disse:
— Sim, eu sei. Eu também faço publicidade. Aliás, participo nesta nova campanha da Knorr Natura mas não sei porquê acharam que não era a mensagem que queriam passar...
— Sério?
Então abri o meu portfolio e mostrei-lhe. Não ficou muito surpreendido, mas ficou com vontade de comprar o produto. Funciona, portanto. Que mais querem os anormais da Knorr?

sábado, 25 de julho de 2009

Ladra à feira

Terça-feira e sábado: feira da ladra. Abre às cinco da madrugada? Não, pelo menos não das vezes que por lá passei a essa hora. Às cinco da madrugada, o homem que vende azulejos ainda deve andar com um cinzel pelos velhos palácios, estações de comboio e outros espaços públicos; o homem das estranhas molduras e retratos deve estar a calcular o seu percurso por velórios e cemitérios; as bonecas antigas retocam a sua maquilhagem, alisam ou frisam os cabelos, conforme os gostos dos compradores; os ténis usados, de tão usados, mal se deslocam mas não deixam de espalhar o seu peculiar odor; a cena retro dos discos de vinil, que tantos gostam de comprar pela capa mais estridente, a condizer com o som riscado que deles sai...
A feira da ladra é uma mistura de cheiros, cores, pessoas, um verdadeiro caldo cultural.

Não, desculpem, isto é outro sítio qualquer que não a feira da ladra. A feira da ladra é o inverso: monocromia, monotonia, monodoria, monocultura. Um mono tão grande que faz com que a feira da ladra seja, a par das pombas que ainda há, um dos mistérios de Lisboa.
O melhor de ir passear na feira da ladra é poder correr na chegada a casa para beber água.

sábado, 18 de julho de 2009

Passes

Fui no outro dia tratar do Cartão do Cidadão. Não imaginam as dificuldades que se colocam a um cão para adquirir cidadania. Um mundo de burocracias...
Primeiro: as filas. Agora as Lojas do Cidadão até têm um serviço de SMS que avisa quando chega a nossa vez, mas eu sou teimoso e farei tudo para não ter telemóvel. Aliás, pela crónica da semana passada, percebem facilmente porquê.
Segundo: preencher papéis. Ora, sei que a minha capacidade intelectual esconde algumas limitações físicas que possuo. A falta de dedos oponíveis dificulta-me bastante a utilização de canetas (razão pela qual só escrevo ao computador!).
Terceiro: tirar as impressões digitais. É muito chato, é preciso fazer muita força, mas pelo menos agora já não tem de ser com a tinta (antes aquilo doía e tudo...)
Quarto (e pior): a fotografia. As fotografias tipo passe têm este nome porque a primeira vez que se tirou uma o fotógrafo disse ao fotografado quando este quis ver o trabalho: «Passe, passe». Têm dúvidas? Vejam como ficou a minha...

Depois digitalizo e mostro-vos o meu Cartão de Cidadão.

[N. Ed.: Entretanto esta fotografia já foi usada noutro blog, mas dessa vez não explicaram o contexto em que ela foi tirada.]

sábado, 11 de julho de 2009

Sonos

Haverá melhor soporífero que uma casa? Tirando infelizes excepções, as pessoas dormem em casas. Portanto, é no mínimo lógico fazer esta ligação. a+b.
Sempre que estão no interior, no conforto dos lares, providos ou não de lareiras, a tendência natural das pessoas é para dormir. No fatalíssimo sofá ou na propícia cama. Eu próprio, embebido desse espírito, vou preguiçar e fazer uma crónica bem curtinha.
E... está!

sábado, 4 de julho de 2009

Cafés

Como certamente saberão, e apesar de ter muito mais maneiras que a maior parte das pessoas que os frequentam, não posso entrar nos cafés. Pensam que, com isso, podem cercear a minha vida social. Enganam-se.
Todavia, ficar do lado de fora dos cafés permite-me observar toda a sua intestina vida, com olhos que aqueles que lá se encontram dentro não possuem, por indiferença ou rotina.
Por isso, não reparam no ridículo de agitar o açúcar dentro dos pacotes que em segundos abrirão e deitarão fora todo o seu conteúdo, dissolvendo-o no café. Não só não reparam como já nem pensam quando mexem a colher ou abanam a chávena para esfriar a bebida, que, como eles evidentemente sabem, é intragável fria.
Não vêem a dona Conceição, sentada sozinha na mesma mesa de sempre, a bebericar o seu chá e a mastigar em pequenos pedaços um scone com manteiga. Nem o senhor Alberto a sujar os cantos do desportivo com as suas mãos gordurosas, ao mesmo tempo que espalha as migalhas do folhado pela camisa.
E ouvem, como ruído apenas, a conversa repetida de tantos dias do senhor Júlio e do senhor Carlos, encostados ao balcão e empurrando a alta velocidade cálices de aguardente.
— Quem não te conhece que te compre, ó Júlio!
— Então mas não é? Vais dizer que não é...
— Fica lá com a biciclete. Não vale a pena discutir contigo!...
— Não vale a pena é discutir contigo. Vais logo abaixo à primeira...
— Ai! Mas queres discutir? Tou-te a dizer que não foi nada disso! Tu percebes tudo mal.
Enquanto tudo isto se passa, o homem atrás do balcão refugia-se na máquina do café. Abre um saco, despeja todos os grãos no depósito e enfia avidamente o nariz no saco vazio, inspirando fundo. Mesmo feito todos os dias, aquele gesto sempre é uma fuga à rotina dos outros!

sábado, 27 de junho de 2009

Contas

Falei na passada semana de uma pomba a confrontar-se com a Morte, que lhe olhava directamente nos olhos e dizia «Morrerás... eventualmente!» No entanto, as preocupações dos que me lêem — ou, melhor dizendo, as dos que ousaram comentar a minha genialidade — centraram-se no facto de eu não ter uma conta no blogger.
Ora, para seu regozijo, está criada. (Acredito que seja irrelevante contar-vos que a pomba não morreu, antes se conseguiu libertar, fintando a Morte, mostrando que pela luta é possível.) Mas esta vida é feita de outras contas... outras contas.
Das horas que se contam para ir à rua, mudar águas e correr com os amigos.
Dos minutos que se contam para ter aquele carinho que merecemos pelo simples facto de existirmos, e que retribuímos aos que mais gostamos pela mesma razão.
Das asneiras que fazemos todos os dias, contadas para tentarmos bater o recorde a cada dia, tornando-nos melhores.
E os bichos de conta?, que se passeiam pela calçada à porta de minha casa, pedindo (pelo menos é o que ouço) «cheira-me, mastiga-me».
E as contas do banco?, cujos talões e cartões (e outras complicações) vão estando disponíveis pelas mesas, aparadores, consolas, desafiando-me a trucidá-los.
E as contas aos dias para comer outra coisa que não a ração?, sempre igual, seca e sem sabor...
E as contas às unhas roídas?, por nervos ou por necessidade de limpeza e apresentação...
...
Contas há muitas. Mas a melhor, e a mais certa, é saber que vamos construindo afinidades com as quais podemos contar...